A UTOPIA DO SONHO AMERICANO E OS LIMITES DO DESENVOLVIMENTO

Em dezembro de 1956 em plena recuperação dos desastres nucleares provocados pela Segunda Guerra Mundial, os japoneses se depararam com acontecimentos inicialmente inexplicáveis na baia de Minamata localizada na porção ocidental da ilha de Kyushu. Dóceis Gatos domésticos mudavam de comportamento e se transformavam em verdadeiros demônios atacando quem passasse pela frente, alta mortalidade de peixes e aves e a morte de quatro pessoas, que apresentavam quadros parecidos e incomuns: Convulsões, surtos psicóticos, febre alta, perda de consciência e coma. Intrigados médicos japoneses iniciaram investigações sobre a causa das mortes e descobriram que estavam relacionadas ao lançamento de mercúrio ligado a produção de fertilizantes pela empresa Chisso que operava na região desde a década de 30, o processo de acumulação do mercúrio ao longo do tempo na cadeia alimentar gerava o envenenamento das pessoas que consumiam peixes pescados na baia, mais de 700 mortes foram registradas e pesquisas mais recentes falam em milhões de pessoas afetadas. O que foi conhecido como Mal de Minamata iniciou todo um campo de pesquisas sobre os processos de lançamento de resíduos e contaminação ao longo da cadeia alimentar conhecidos hoje como Magnificação Trófica, era o momento de a ciência começar a demonstrar os limites do modelo fordista.

 Na década de 60, ilustres empresários, políticos, cientistas formaram um espaço para debater os problemas ambientais do planeta em especial a questão do esgotamento dos recursos naturais, conhecido como Clube de Roma esse seleto grupo financiado por grandes corporações encomendou uma pesquisa junto ao renomado MIT (Massachusetts Institute Technology). O documento final dessa pesquisa intitulado Limites ao crescimento ou também conhecido como Relatório Meadows, alertava para o fato que os sistemas naturais da terra não suportariam a pressão do crescimento demográfico por recursos e não conseguiriam assimilar a poluição gerada por esse consumo. Luzes vermelhas acesas e sirenes acionadas, era urgente controlar o crescimento populacional, sugiro que o caro leitor ou leitora leia esse relatório, pois se trata da publicação sobre meio ambiente mais vendida da história (30 milhões de cópias!) segue o link do pdf : http://www.donellameadows.org/wp-content/userfiles/Limits-to-Growth-digital-scan-version.pdf

 Os sociólogos Ulrich Beck e Guidens, cunharam na década de 80 o termo Sociedade de Risco, com o agravamento da degradação ambiental a reflexividade negativa das intervenções humanas produziriam uma nova percepção dos riscos, levando a um comportamento preventivo da sociedade. Passados 40 anos me pergunto, se a reflexividade provocou mudanças significativas nos padrões de crescimento, produção e consumo.

   O fato é que vivemos o ápice do processo de Globalização, com o avanço extraordinário dos sistemas técnicos que através de comandos cada vez mais centralizados, formam um verdadeiro motor único (Santos, Milton 2000) agravando os processos de acumulação-exploração típicos da evolução moderno-colonial do sistema capitalista, ressalta-se a palavra exploração, pois a dinâmica produtivista e consumista tem como base o processo de exploração da natureza e dos homens numa escala jamais vista. Apesar dos riscos e dos sinais claros dados pelo desequilíbrio ecológico, a racionalidade – irracionalidade dos sistemas modernos coloniais não apresenta perspectivas de mudanças significativas.

   O distinto Clube de Roma financiado pelas grandes corporações, indicava através do relatório Meadows que uma das ações mais urgentes era o controle do crescimento demográfico, Malthus renasce das catacumbas, para evitar o desastre gritam os Neo (paleo) malthusianos precisamos impor limites a explosão demográfica do terceiro mundo. Num verdadeiro show de ilusionismo e fabulação, os distintos cientistas colocam a responsabilidade do colapso ambiental nas costas das sociedades exploradas pelos mecanismos do capitalismo global.

   O raciocínio parece linear e fácil de ser assimilado, mostramos de forma dramática as taxas de crescimento demográfico, construímos uma relação simples entre crescimento natural e consumos de recursos, “medimos” a quantidade de recursos disponíveis e chegamos à conclusão que não haverá recursos para todos. Como solução propomos o limite ao crescimento e deixamos as coisas como estão. Agora é convencer a incauta opinião pública disso

   Nesse universo de fabulações e nessa verdadeira ideologização da informação (Santos 2000) caminha parte do movimento ambientalista, a questão essencial não é demonstrada porque ela precisa ser ocultada sob pena de se desenvolver uma nova racionalidade, que prejudicaria muito quem financiou o distinto Clube de Roma.

   A verdadeira base da insustentabilidade está nos padrões de produção e consumo globalizados, especialmente pelas grandes corporações estadunidenses. O exaltado “American Way of Life” e a possibilidade inventada de que todos terráqueos podem usufruir dos “padrões de vida” da classe média Yanke está nos levando para o abismo ecológico e social. O argumento dos Neomalthusianos é desmantelado com uma simples análise na distribuição dos recursos, segundo relatório do Banco Mundial 80% dos recursos são consumidos por 20% da população.

    O dogma desenvolvimentista aparece como um mecanismo fundamental para conquistar corações e mentes, DES-ENVOLVER significa tirar envolvimento, retirar autonomia (Porto Gonçalves 2009) os modelos de desenvolvimento impulsionados pelos países ricos como verdadeiros receituários, implicam muito mais num planejamento do subdesenvolvimento do que na promoção de um verdadeiro desenvolvimento.

A internacionalização dos processos produtivos pelas grandes corporações através dos processos de fragmentação produtiva e logística (Just In Time) permitem a exploração de recursos naturais e humanos a partir de uma verdadeira flexibilidade/mobilidade, como exemplo dessa realidade podemos citar o processo recente de desmantelamento das operações da Ford no Brasil, sem aviso prévio, como se desmontasse uma lona de circo a empresa anuncia a interrupção da produção de veículos no Brasil. Doze mil desempregados contando empregos diretos e indiretos e bilhões de reais em incentivos fiscais, um dos diretores da empresa deu a seguinte justificativa: "A Ford não está abandonando o Brasil, mas se readequando às circunstâncias de mercado, em parte pelos erros que ela própria cometeu. Acho que a decisão foi acertada, levando em conta a saúde financeira da empresa. Ela quer um crescimento mais sustentável", argumento sincero, a Ford não está abandonando o Brasil na realidade ela nunca pertenceu ao Brasil, é uma relação de interesses. A alegada sustentabilidade dos negócios passa pela redução de custos e nessa nova “circunstância de mercado” a Argentina e o Uruguai interessam mais, pois oferecem muito mais amor traduzido em lucro, don´t cry for me Brazil.

  As famosas externalidades, ou seja, os riscos e custos ambientais e sociais são compartilhados com o Estado mais os lucros não, enquanto os caros champanhes borbulham nas taças dos endinheirados de Wall Street, o desespero dos pratos vazios e o ranger de dentes do genocídio diário produzem enormes bolhas de magma de um vulcão social que está em plena erupção. Mas afinal de contas são apenas externalidades não é mesmo?

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